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Rétrospective Michel Gondry

Cinémathèque suisse

27/08/2026 - 25/10/2026

Michel Gondry

Michel Gondry, o cinema como parque infantil

Por mais de três décadas, Michel Gondry ocupou um lugar singular no cenário audiovisual. Baterista, roteirista e diretor, ele deixou sua marca com um universo fundado na inventividade, na poesia do cotidiano e no uso de técnicas artesanais. Enquanto muitos cineastas privilegiam os efeitos digitais, Gondry prefere efeitos práticos criados no set, cenários feitos à mão e ilusões de ótica engenhosamente concebidas.

Gondry ganhou destaque na década de 1990 por meio de colaborações com grandes artistas musicais internacionais, incluindo Björk, Daft Punk e The White Stripes. Ele revolucionou a estética dos vídeos e da publicidade, infundindo-lhes uma energia inovadora. Seus videoclipes se distinguem pela capacidade de transformar ideias ousadas em experiências inesquecíveis. Seu talento rapidamente transcendeu o universo da música, atraindo a atenção da indústria cinematográfica e chegando até Hollywood.

Esse reconhecimento atingiu seu ápice com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004), que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original. Através da história de um casal que opta por apagar as memórias de seu relacionamento, Gondry explora com maestria os mecanismos da memória, do arrependimento e do desejo. O filme mescla emoção, fantasia e reflexão filosófica em uma narrativa onde as fronteiras entre ficção e realidade se confundem constantemente. Esse talento para dar forma visual aos sentimentos mais complexos é uma de suas maiores qualidades.

Ao longo de sua carreira, Gondry ampliou seu alcance com filmes como A Ciência dos Sonhos (2006), Rebobine, Por Favor (2008) e Mood Indigo (2013). Objetos comuns ganham vida, paisagens se transformam e pensamentos assumem uma materialidade surpreendente. As cenas mais banais se tornam veículos para um senso de encantamento acessível, uma ruptura com a lógica espetacular da indústria cinematográfica.

A infância também ocupa um lugar central em sua obra. É uma forma de olhar o mundo com uma curiosidade insaciável, sem sucumbir à nostalgia. A exploração, até mesmo ao ponto da fuga, impulsiona as personagens em busca de significado. Essa dimensão autobiográfica também se encontra em O Livro das Soluções (2023), onde o ato de criação aparece tanto como fonte de desordem quanto como necessidade vital.

Por meio de filmes, videoclipes, documentários, animações e instalações, Gondry sempre defendeu uma abordagem lúdica da imagem. Sua obra, que inspirou diversas gerações de cineastas, videoartistas e outros artistas, nos lembra que a inovação às vezes surge da restrição, que a poesia pode emergir de tesouras, papelão e barbante, e que o cinema permanece, acima de tudo, uma arte de engenhosidade. Organizada para celebrar o 50º aniversário da Collection de l'Art Brut, esta retrospectiva nos convida a explorar um mundo onde cada filme reafirma, com uma liberdade deliberada, a alegria da experimentação.