Cinema Queer 2
Ser queer é inevitável.
“O cinema queer como fenômeno foi apresentado há um ano no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), o lugar ideal na América do Norte para explorar novas tendências cinematográficas. Lá, de repente, uma onda de filmes oferecendo algo novo varreu as telas, filmes que repensavam subjetividades, anexavam gêneros e reinterpretavam histórias à sua própria imagem. (...) A mensagem era clara: as perspectivas queer agora são inevitáveis.” B. Ruby Rich, Sight & Sound , 1992.
Em seu artigo seminal de 1992, B. Ruby Rich observou o surgimento de uma onda de filmes queer que eletrizavam a produção convencional, a qual ela denominou Novo Cinema Queer. Sem associar esses filmes a um movimento estético específico e sem diferenciar seu estilo, ela lhes atribuiu diversos denominadores comuns: tornar os corpos queer visíveis, desafiar normas, reapropriar-se da história e dos códigos do cinema mainstream, tudo isso por meio de uma abordagem construtivista e irreverente.
Nascida da convergência de fatores (marcos do passado, necessidade de ruptura, a crise da AIDS), essa onda queer viu a ascensão de inúmeras vozes – Rose Troche ( Go Fish ), Todd Haynes ( Carol ) – e abriu novas possibilidades para a criatividade LGBTQ+. Após o sucesso desses filmes independentes na década de 1990, os estúdios começaram a inserir temas queer no cinema mainstream. Essa comercialização foi percebida por B. Ruby Rich como o fim do Novo Cinema Queer.
Embora essa mudança comercial tenha oferecido maior visibilidade a personagens LGBTQIA+, ela também seguiu uma lógica financeira com consequências significativas, podendo levar à padronização narrativa, à homogeneização da representação e ao pinkwashing. Nesse sentido, "Minhas Mães e Meu Pai " é um caso interessante: por um lado, o filme — com um elenco de estrelas — apresenta um casal de pais do mesmo sexo sob uma luz positiva e "normalizada", mas, por outro lado, retrata a figura paterna como uma condição para a estabilidade familiar e flerta com padrões narrativos heteronormativos.
Desde a década de 1990, o número de filmes com personagens LGBTQ+ tem aumentado constantemente. Embora por vezes impulsionado pelo oportunismo, esse aumento de visibilidade também permitiu que cineastas como Céline Sciamma ( Retrato de uma Jovem em Chamas ) e Andrew Haigh ( Weekend ) brilhassem no cenário internacional, ao mesmo tempo que fomentou a disseminação do cinema queer para além dos principais países produtores. É essa realidade e essa diversidade que a segunda parte da programação queer nos convida a refletir.
Esta segunda parte compreende cerca de trinta filmes, exibições com comentários, além de duas mesas-redondas e uma mostra conjunta com a retrospectiva dedicada a Léa Pool, cineasta suíço-canadense cuja filmografia acompanhou a evolução da visibilidade queer. Essa visibilidade é frágil e vem diminuindo há vários anos, uma das consequências do atual clima político queerfóbico e com tendências fascistas. A identidade queer não pode voltar a ser ignorada.